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Páscoa, renovação do homem e da natureza
Todos os anos passo a minha Semana Santa no Sítio Extrema, um lugarejo situado no município de Acopiara, região centro-sul do Ceará. O Sítio Extrema é um desses lugares digno de cenas de filmes. Aqui você acorda com o canto dos pássaros e o cheirinho de café sendo passado na calada da manhã. O galo canta às três da madrugada despertando todos do lugar. Antes mesmo do sol raiar a passarada entoa sinfonia nas árvores que rodeiam minha simples e modesta casinha. Ela fica bem ao lado da estrada que liga a outras localidades. Por ela passam o rebanho e as ovelhas de Zé Amorim. Da sala dá pra ouvir o aboio ecoando pelo restante da casa. Na calçada colocamos as cadeiras de balanço depois que o sol pende para o poente. É sentar e sentir o cheiro, quando o vento sopra, do pé de bugari da Tia Izá. Até então, a calçada só serve para esquentar feijão e arroz em tempo de inverno bom. É sagrado nesse horário minha mãe executar algumas tarefas diárias. Sempre nesse horário ela chega com sua bacia de alumínio bem limpa e ariada, a peneira e seu cigarro de palha de milho. Logo aparece uma galinha para comer o que é jogado fora. Depois chega um porco fuçando e escavagando o chão. A galinha, coitada, perdeu seu sossego! Uma vez por outra se ouve o chiado dos grãos na bacia de alumínio quando sacode para cima soltando um assobio se valendo de São Loureço para que ele mande o vento que sopra a palha e os grãos menores.
Passar a Páscoa aqui nesse lugarzinho tão distante e de difícil acesso é renovar para a vida e para o mundo. Quando a chuva chega é aquela transformação. Primeiro, o cinza das matas dão lugar ao verde, a terra exala um aroma inconfundível, aparece passarinho de todos os cânticos e cantos, borboletas deixam as estradas mais coloridas, flores crescem em quintais e varedas, sapo coaxa o dia inteiro numa teima danada num “foi! Num foi!” nas baixas de arroz e beira de cacimbas, as cajaranas maduras amarelam o chão. A vida aflora em todos os cantos.
Tudo se renova! Quando retorno, já não sou mais o mesmo.

Uma cozinha muito simples mas tudo aqui é poético e singular.

Fogão a lenha.

Na dispensa é guardado de tudo.

No armário velinho as coisinhas que são o xodó da minha mãe.

Tudo aqui um dia pode ser utilizado. Daí não se joga nada fora!

Aquilo que vai para o lixo ainda aguarda uma nova utilidade.

O maestro dirige a orquestra Com o bailar de suas mãos Levando aos que lhe ouvem Fortes e grandes emoções Mãos ternas de minha mãe Quando ao colo me levava Mãos tão leves de papai Quando meus cabelos alisava Mãos trabalhadoras do artesão Do pedreiro, do artista Mãos delicadas do cirurgião Mãos mágicas do violonista Mãos carinhosas da vovó Que nos dá tanta ternura. Mãos que escrevem a história Mãos que escrevem a poesia Mãos que acariciam o corpo Com seus toques de magia. (Arlete Moreira dos Reis)

No santuário são feitas as orações à Virgem Maria e ao Divino Espírito Santo nos fins de tardes.

Frutas maduras caem pintando o chão de amarelo.

O inverno é a Páscoa do sertão. Tudo se renova!

Páscoa é supulcro vazio.

É Jesus a luz do mundo que se mantem acesa e presente entre nós.